Luís Palma



Ocupação

Ocupação

‘Ocupação’ é um projecto que começou com um registo de imagens a partir do telemóvel quando visitei pela primeira vez a praia da Fuseta no Parque Natural da Ria Formosa.

Tratando-se de uma área protegida e com acesso apenas por barco, nunca supus que seria confrontado com uma realidade muito distante do que tinha imaginado. Esta “estranha forma de vida” possivelmente só atinge os próprios habitantes que ao longo do tempo edificaram as suas casas num território hoje classificado como reserva natural.

A partir das imagens iniciais produzidas no espanto de um encontro com um contexto inesperado, Luís Palma decide olhar essa realidade com o rigor que o define no modo como encara a fotografia num percurso iniciado nos finais dos anos oitenta do século passado. O paisagismo industrial, os grandes espaços disruptivos do capitalismo tardio, as excrescências de um progresso dessintonizado do meio ambiente têm sido temas amplamente tratados por este artista. A sua visão ancora-se num olhar eminentemente político, onde a memória assume a dimensão de escape inevitável a um formalismo sempre presente, mas decididamente subalterno a uma discursividade supletiva.

Ocupação é um livro que nos transporta para uma especificidade territorial onde a luz carrega o peso de elemento transversal e unificador. A luz intensa e delimitadora de contrastes diluídos num ambiente onde os brancos e ocasionais cores primárias pontuam um céu límpido e uma flora estranhamente verdejante. Aqui os protagonistas (pescadores ou residentes em geral) estão ausentes. Nas cinquenta e uma imagens as protagonistas são, quase exclusivamente, as casas. A habitação daqueles que durante décadas se viram imersos em processos de tentativa de legalização – muitas vezes prometida, outras vezes interdita, sempre em oscilações que o desatino de políticas errantes no que à coesão territorial diz respeito, o nosso país soube tão frequentemente contradizer-se, resvalando da indulgente permissividade à autoritária decisão.

A precariedade divergente destas habitações é um sintoma disso mesmo: se nalguns casos se percebe que não passam de cabanas mais ou menos improvisadas, noutros adivinhamos a ambição de perenidade. E aí entram expetativas de uma história feita em permanente sobressalto: a dignidade daquelas paredes, por mais oblíquas que possam aqui e ali apresentar-se, é sinal de esperança dos habitantes num presente com futuro. O improviso – Luís Palma presta particular atenção a canalizações, tubagens, reservatórios de água mais ou menos evidentes -, é modo de vida contra a abstração da lei. E as cadeiras, sempre desocupadas, são metáfora pungente de uma espera em contínuo.


Miguel von Hafe Pérez
Em "Livros de Fotografia em Portugal: da revolução ao presente";
uma co-edição Ghost Editions; Pierrot Le Fou; Stet
2024

© LUÍS PALMA