Luís Palma



Factos e Ficções, a propósito de apropriação.

Factos e Ficções, a propósito de apropriação.

"O poeta é um fingidor,
finge que é seu aquilo que é dos outros".

João Barrento, "Romantismo e Tradução",
Biblioteca Almeida Garrett, Porto, 2021.

“Factos e Ficções', a propósito de apropriação" é uma série que tem como pressuposto o mapeamento fotográfico de sítios relacionados com a arqueologia industrial, espaços urbanos ou simplesmente lugares incógnitos. Este portefólio não pretende seguir nenhuma prática topográfica sobre "paisagens inóspitas"; nem promover uma causa política pela transfiguração de cenários naturais. Mas, sim, recriar a ideia artística de apropriação a partir de um olhar ficcional. Estas imagens funcionam como registo de acontecimentos que a fotografia processou numa acção repetitiva, independentemente da sua natureza e localização geográfica. Tal qual como este prefácio que mais não passa de um conjunto de frases de diferentes críticos de arte que se cruzam até formarem uma "estrutura conceptual". Nalguns casos desconhece-se o desígnio dos elementos fotografados; enquanto que noutros é-nos possível identificar a aparente funcionalidade destas peças que resistem à passagem do tempo.

Quando, por exemplo, observarmos o pormenor de uma estrutura em ferro suspensa na escarpa de uma paisagem (Figs. 1 e 2), com algum encanto podemos imaginar que se trata de uma escultura "pensada como parte integrante da paisagem desse mesmo local". As imagens em que reconhecemos a origem do objecto fotografado, algumas delas fazem parte da nossa memória afectiva, em particular da geração que conviveu com o drama da Guerra Colonial, como é o caso das máquinas agrícolas que serviram de apoio à campanha de trigo no Alentejo durante o regime do Estado Novo (Fig. 4).

Outro exemplo distinto é uma escultura colocada num espaço público encomendada para inaugurar um parque industrial (Fig. 6). Esta peça ao longe recorda o tempo da propaganda do regime da União Soviética, da imagem "construtiva que parte da experimentação e da aprendizagem e não do estímulo e da sugestão". A ironia desta mesma escultura - desconstrução da foice e do martelo - reside no facto deste recinto ter sido efectivamente inaugurado, mas sem que nunca tivesse sido ocupado; encontrando-se ao abandono como testemunho da crise imobiliária que afectou a Europa e os EUA na primeira década deste século.

A imagem seguinte (Fig. 7) foi igualmente realizada no mesmo local e inspira-se na obra "Painting" do artista Francis Alys. O primeiro plano representa um separador de sinalização, em curva, pintado de amarelo e branco; precisamente a mesma cor amarela utilizada nesse vídeo. O tempo de duração desta obra videográfica de Francis Alys é o tempo que o próprio artista demora a pintar, nessa mesma cor, uma linha tracejada no alcatrão da estrada de acesso à antiga base militar de Paraíso no Panamá.

A imagem em que vemos um tubo preto suspenso por uma série de estacas em ferro (Fig. 10), a mesma sugere a obra fotográfica "Solenoglypha Polipodida", 1985, da série Fauna, do artista Joan Fontcuberta: um estranho réptil de desaseis patas que o artista documenta como se no passado esta "espécie" tivesse existido, mas na realidade não passa de uma ficção transversal à obra de Fontcuberta. Cheio de ironia e sentido de humor que marca um estilo genuíno associado a uma inteligência crítica invulgar.

A escultura representada nas Figs. 9 e 10 é uma instalação que "representa um diálogo entre a prática artística na arte moderna e o registo conceptual associado ao movimento Land Art". "Factos e Ficções', a propósito de apropriação" baseia-se assim na obra imaginária, ou não, de outros artistas cujo processo de trabalho se identifica com a intervenção em espaços públicos. "As formas dos materiais usados sugerem uma perspectiva plástica evidenciando-se mapeamentos, anotações e registos fotográficos; como ferramentas auxiliares para um pensamento criativo. A reflexão, o trabalho e a criatividade comungam com este princípio à qual se junta a ideia obsessiva de corrigir o 'imperfeito' no sentido de criar novos cenários".

"Este conjunto de fotografias são portanto peças fundamentalmente escultóricas a partir de lugares físicos cujos espaços remete-nos para um exercício de memória e reflexão".

© LUÍS PALMA