Luís Palma



Factos e Ficções, a propósito de apropriação.

"O poeta é um fingidor,
finge que é seu aquilo que é dos outros".

João Barrento, "Romantismo e Tradução",
Biblioteca Almeida Garrett, Porto, 2021.

“Factos e Ficções”, a propósito de apropriação é uma série que tem como pressuposto o mapeamento fotográfico de sítios relacionados com a arqueologia industrial, espaços urbanos ou simplesmente lugares incógnitos cuja paisagem foi sujeita à intervenção humana.

Nalguns casos desconhece-se o desígnio dos elementos fotografados; enquanto que noutros é-nos possível identificar a aparente funcionalidade desses objectos e o propósito dessas estruturas que resistem à passagem do tempo.

Nesta série não se pretende alcançar nenhum exercício de paisagismo topográfico nem promover uma causa política. Mas recriar a ideia de apropriação a partir de um olhar ficcional. Estas imagens funcionam como registo de acontecimentos que a fotografia processou numa acção repetitiva, independentemente da sua natureza e localização geográfica.

Quando, por exemplo, observarmos o pormenor de uma estrutura em ferro suspensa na escarpa de uma paisagem podemos imaginar, com algum encanto, que se trata de uma escultura pensada como parte integrante da paisagem desse mesmo local. Como uma encomenda institucional para uma instalação artística.

Noutras obras fotográficas é possível reconhecer a origem do objecto fotografado. Alguns deles fazem parte da memória colectiva de uma geração; como é o caso das máquinas agrícolas que serviram de apoio à campanha do trigo no Alentejo durante o Estado Novo.

Uma outra fotografia, em particular, é uma escultura cuja encomenda serviu para inaugurar um parque industrial. A ironia desta obra fotográfica reside no facto de que este recinto nunca chegou a ser ocupado encontrando-se ao abandono como um testemunho da crise imobiliária que afectou a Europa e os EUA na primeira década deste século.

© LUÍS PALMA