Luís Palma



Paisagem, Indústria, Memória

Esta exposição, que resulta de uma parceria feliz entre um fotógrafo, Luís Palma, e um erudito basco, paredes meias de antropólogo e filósofo social, Fernando Golvano, mostra-nos de forma clara e afirmativa que a passagem da revolução industrial para a terceira vaga envolve toda uma tradição cultural do ocidente e aponta para uma crise da sociedade e das ideias.
Trata-se do País Basco, baluarte de forte industrialização na Península, mas poderia ser em qualquer outra parte; na maré baixa de todas as industrializações, há paisagens que se dividem entre saudade e o desespero, a patente crise social da indústria, uma memória interrogativa que desespera na procura de saídas. Fernando Golvano transmitiu a sua reflexão quente de uma vivência ainda recente ao fotógrafo Luís Palma e este traduziu a sua experiência nesta mostra que, inquietando as nossas consciências, nos oferece, ao mesmo tempo, a reflexão sobre essa extraordinária força da fotografia, capaz capaz de criar objectos estéticos distintos das ruínas que anuncia.
As estruturas industrias proporcionam estes cenários futuristas, onde a desolação tem mais a ver com o movimento para o depois do que a desumanização que patenteia. Esta encenação de Luís Palma aponta um futuro vazio, carregado de ecos de crise social e da paisagem, fala de urgência mas também de desalento, traz a palco a memória social de uma cultura prometaica plena de utopias e grandiosidade que acabou como tudo acaba neste mundo solar,minada pela ferrugem. Imagens que falam também de si mesmas, visões sombrias sem apocalipse, onde a claridade difusa do Atlântico distribui devaneios onde Luís Palma os reconheceu.

Maria do Carmo Serén, 1999.

© LUÍS PALMA