Luís Palma



Sobre a fotografia da Estação Internacional de Canfranc.

Qual o alcance do fotográfico na representação e percepção de certos lugares? De que modo é que a imagem fotográfica activa a reflexão sobre a história e sobre as ressonâncias simbólicas ligadas ao lugar representado? De que forma a representação do lugar permite discernir categorias singulares de experiência visual – nomeadamente no que se refere à experiência da memória e do tempo, aos modos de descrição e de ficção, à análise histórica e política – que assinalam uma exigência do papel do espectador? Estas têm sido questões centrais no imaginário de Luís Palma, para quem o trabalho sobre a territorialidade, a arquitectura e a paisagem envolve um desafio cada vez mais necessário, o de resgatar as incidências, os dilemas e os ecos da história sobre os lugares, de escrutinar os seus sentidos físicos e sociais. Esta imagem reproduz um edifício situado na Estação Internacional de Canfranc, na fronteira entre a França e a Espanha, onde se sabe que, entre 1936 e 1945, passaram comboios a caminho de Portugal transportando ouro nazi, facto nunca assumido pelas comissões e respectivos relatórios oficiais com a responsabilidade de investigar estes acontecimentos. É portanto uma imagem simultaneamente descritiva e especulativa, que articula a expectativa de documentação de um lugar “exemplar” com a assunção da imagem como uma forma privilegiada de (re)apreciação histórica e política.
O interesse que a arte contemporânea, em particular a fotografia, tem dedicado ao conceito de lugar deve ser entendido também no contexto de um quadro muito concreto, o que assinala a existência de uma convergência essencial entre a conceptualização da história e a prática fotográfica, na medida em que ambas procuram fixar, condensar, enquadrar relações e eventos vinculados a uma determinada realidade espácio-temporal. Este é um quadro que muito deve a Walter Benjamin, que valorizou a fotografia como um modelo de inteligibilidade dos fenómenos espaciais, sociais e políticos, como um meio que se distingue pela sua capacidade de isolar um detalhe, de reter e imobilizar o movimento histórico, como um olhar de medusa que tem o condão de atolar a história na esfera da especulação, suspendendo a continuidade temporal entre passado e presente, e criando a possibilidade de um outro modo de entender e examinar a história.
Este edifício abandonado em Canfranc é um sintoma, um indício desolador de um tempo trágico e inimaginável. Foi por aqui que passaram aqueles comboios carregados de infâmia. Neste mesmo período, num outro ponto desta mesma fronteira, morreu Walter Benjamin, tentando chegar a Portugal.

Sérgio Mah
In "Mapeamento, Memória, Política",
Edição de autor, Luís Palma, Porto, 2014.

© LUÍS PALMA