Luís Palma



Bascos

Se olharmos para a fotografia contemporânea, que encontramos? Encontramos a informação e a informação manipulada, para as quais a imagem fotográfica continua a desempenhar o papel de prova plausível; encontramos a publicidade para a qual a imagem digitalizada e manipulada até à exaustão continua a desempenhar o papel de sedutora mediática; encontramos a fotografia de autor ao serviço do espectáculo, da moda e da política, como sistema de legitimação cultural dos pequenos e grandes poderes, situacionistas ou oposicionistas; encontramos os restos de uma arte da fotografia perdida na sua irremediável dissolução disciplinar; enfim, encontramos nos interstícios de toda a "praxis" fotográfica olhares que por vezes nos fazem pensar e amar imensamente essa linguagem de espelhos tão nova e tão espelhada pelo mundo, ao alcance de todos, mas que apenas uns poucos sabem usar de modo muito especial. De modo a provocar em nós retornos da memória, empatias e antipatias, pensamentos labirínticos, gozo estético. paixão e devaneios filosóficos.

A fotografia, como qualquer outra arte e como qualquer linguagem, é uma matéria sensível, cuja importância objectiva deriva necessariamente de uma espécie de competência comunicacional e estética, isto é, de um saber contextual histórica e tecnicamente formado, aplicado a um espaço e a um tempo, de que vem a ser expressão subjectiva responsável, através da vida de quem cria, mas também de uma consciência crítica dos corpos e dos lugares. No caso de Luís Palma, esta responsabilidade deriva dum saber de disciplina oriundo de uma atitude observadora sobre o mundo que já pouco deve aos motores ideológicos tradicionais do marxismo, talvez por enraizar o seu saber num outro género de realismo, pragmático, ou se quiserem fenomenológico, por ventura mais próximo do realismo poético de Di Corcia e de Nan Goldin, do que das "verdades instantâneas" e plenas de heroísmo autocomplacente do neo-realismo europeu do pós-guerra. Portanto a propósito da indagação filosófica de Luís Palma sobre a densidade de Bilbau, é de sublinhar que o seu olhar nada tem a ver com as deambulações narcisistas do Paisagismo do Eu que continua a infestar o narcisismo chic de muito da "vanguarda pompier" incrustada no aparelho burocrático da cultura europeia actual. As suas séries fotográficas em volta das periferias urbanas, ou melhor dizendo, em volta da sub-urbanidade e da urbanidade degradada pela especulação e pela hipostasiação pós-urbana das redes viárias, das grandes superfícies de consumo e da televisão, tem um ponto de partida pragmático e não cultural. Enquanto a maioria dos fotógrafos trabalham por e para formatos culturais - a reportagem, a moda, a galeria de arte ou o mmuseu -, Luís Palma à semelhança de outros (estou a lembrar-me de A. Alves da Silva) parece ter encontrado uma realidade filosoficamente constituída para a sua perlaboração artística. O mundo está aí; por ex., o mundo que o consumo não retrata mas procura seduzir a todo o momento. Um mundo complexo, atravessado de dramas e incertezas, duro de roer, degradado, condenado à exploração e à indignidade, que reage à adversidade, umas vezes brutalmente, outras, entoando hinos de inesquecível belez. Do ponto de vista do bem-estar certamente sub-mundos. Mas de qualquer outro ponto de vista, são a penas e tão só a mesma humanidade.

Esta última observação parece-me decisiva para situar os inquéritos poéticos de Luís Palma sobre a periferia do Porto ou sobre a bacia de Nervión. As suas fotografias em vez de exibirem a fraqueza de um mundo condenado à obscuridade, mostra-nos a beleza, ou melhor dito, a dignidade temporal desses não lugares e dessa não-gente, com a determinação mais fundamental da arte que é a de defender a magia erótica da vida contra todos os princípios de realidade, procurando-a e procurando fazê-la vibrar mesmo nas piores circunstâncias civilizacionais. As suas imagens do mundo industrial basco são pictoricamente fascinantes. Não pretendem ser verdades documentais, mas poéticas e por isso, o mundo urbano e sub-urbano por elas descrito. É uma representação teórica fenomenológica, predisposta a suscitar o gozo produtivo da meditação.

Num certo sentido, pode entender-se o trabalho de Luís Palma como uma arqueologia sincera e oportuna do quotidiano que não aparece nas visões permanentemente optimistas da publicidade da política. Estou de acordo com a interpretação, mas creio que não chega para explicar a beleza e força das suas imagens. Há uma outra realidade a mover as suas entranhas. Há a humanidade intrínseca do mundo onde a sua fotografia se move e há a competência artística e técnica capaz de fixar o seu olhar na forma de uma representação imaginária que a todo o momento nos devolve a oportunidade de nos determos nas nossas mais profundas convicções e dúvidas metafísicas sobre a origem da felicidade.


António Cerveira Pinto.
In "Paisagem, Indústria, Memória"; livro da exposição;
Museu San Telmo / Centro Português de Fotografia; 1999.

© LUÍS PALMA