Luís Palma



Silentes

Diz-me a experiência que a fotografia contemporânea, nomeadamente aquela que claramente se inscreve no campo artístico, sofre de uma recepção dicotómica perfeitamente discernível. Por um lado, a sua aproximação ao real, por mais problemático que este conceito possa vir a revelar-se, cativa uma franja significativa do público que nela se vê reconfortado por se poder alhear da grelha de propostas supostamente mais complexas que a contemporaneidade lhe propõem. Por outro, essa mesma aproximação ao real cria a mais profunda descrença no “mérito artístico” destas representações, que passam a ser classificadas de “triviais” e “fáceis”. Ora é exactamente no trânsito que percorre este tipo de adesão e este tipo de recusa que se deverá procurar algumas das características fundadoras do interesse e intensidade de uma fotografia atravessada por um ímpeto que questione a convencionalidade do nosso olhar e dos respectivos modos de representação, factores instigadores de uma verdadeira diferenciação estética.

Na verdade, autores tão distintos entre si como Jeff Wall e Thomas Ruff, para citar dois casos que mais positivamente têm trabalhado o trânsito acima referido, enfrentam com uma consistência invulgar o banal enquanto categoria estéticaEm Wall tal acontece principalmente nas suas passagens, nomeadamente naquilo que ele designa como “quase documentário”, isto é aqueles fragmentos marginais de uma realidade demasiado filtrada na fotografia artística, naqueles intrínseco urbano ou comportamentais que definem um dia – a – dia sem aura nem transcendência. Já em Ruff, a tensão estabelece-se eminentemente no âmbito naquilo que é representado e no respectivo modo de representação, sendo que, tal como o autor sublinha, tudo se trata de manipulação, tanto técnica, como temática.

A intenção delineada por Luís Palma para o exterior do edifício do Pátio da Inquisição de Coimbra repercute algumas das tensões que atravessam o controverso estatuto da fotografia contemporânea. Na verdade, hoje em dia assistimos a uma série de produtores de imagens insinuar-se neste território, o que representa necessidade de uma coabitação onde as fronteiras tradicionais se tendem a estabelecer. Contudo, este facto representa igualmente uma mais – valia para os artistas, na medida em que lhes permite uma apropriação ideologicamente sustentada de linguagem de publicidade, dos media ou de campos supostamente ainda mais distantes do fazer artístico, como científico, por exemplo.

No caso concreto da intervenção em causa, que se caracteriza pela inscrição de seis grandes retratos de corpo inteiro e de uma frontalidade fria de jovens estudantes de raça negra da Universidade de Coimbra nas janelas do edifício agora reconvertido em espaço cultural, Luís Palma continua um dos vectores fundamentais da sua pesquisa criativa, nomeadamente a que ele tem vindo a genericamente intitular “Memória Social” (por oposição, em regra, às séries de “Memória Urbana”, mais concentradas no aspecto físico da paisagem que nos rodeia). No presente caso, a própria inserção destas imagens num edifico historicamente tão relevante é, por si mesma, uma atitude que remete para uma posição conceptualmente deliberada, exactamente porque vai fazer interagir o peso da memória de uma estrutura arquitectónica e simbólica que esteve ligada a um poder nefasto discricionário, o da inquisição, com a presença impositiva e absolutamente contemporânea destes retratos que, no entanto, em si condensam um sopro quase espectral. Destas personagens nada sabemos, nem o autor nos fornece grandes pistas para qualquer tipo de análise fisiognómica. Porém, a sua condição de pertença de uma minoria racial do nosso país atira-nos inevitavelmente para uma leitura de confronto com a memória dos sistemas de exclusão e apagamento das diferenças que o edifício carrega. Assim, numa estratégia que se caracteriza pela não estridência, esta proposta acaba por ganhar uma densidade política que remete para a contemporaneidade, onde os sistemas de discriminação se sedimentam de uma forma bem mais dissimulada. É, então, através da monumentalidade anónima destes retratos que os resgatamos da trivialidade contingente que os caracteriza, exactamente porque funcionam como um conjunto visual e ideologicamente imponente, que estabelece um diálogo tensivo com a inevitável teia de conotações que um edifício tão historicamente carregado como o deste Pátio da Inquisição de Coimbra acaba por conservar.

Miguel von Hafe Pérez
In "Coimbra"; livro da exposição;
Centro de Artes Visuais; 2003.

© LUÍS PALMA